Toda virada de ano, milhares de pessoas recomeçam a mesma dieta que abandonaram meses antes, movidas por uma meta clara: perder determinado número de quilos até uma data específica. Lucas Peralles, nutricionista esportivo e fundador do Método LP, observa que esse tipo de objetivo, por mais legítimo que pareça, raramente sustenta uma mudança de comportamento duradoura, e a razão para isso tem menos a ver com falta de esforço do que com a forma como a própria meta foi construída desde o início.
A psicologia comportamental chama esse padrão de mudança baseado em resultado, aquele em que toda a motivação gira em torno de um número final a ser alcançado, como perder dez quilos ou atingir determinado percentual de gordura. O problema, segundo pesquisadores que estudam formação de hábitos, é que esse tipo de meta tende a se esgotar exatamente no momento em que é atingida, já que não existe nenhuma razão mais profunda sustentando o comportamento depois que o resultado chega. É aí que mora a diferença entre quem emagrece e volta a engordar repetidamente e quem constrói, de fato, uma nova relação com a própria rotina.
Por que perseguir um número específico costuma falhar no longo prazo?
Pesquisadores que estudam formação de hábitos descrevem três camadas de mudança comportamental, sendo a mais superficial delas o resultado desejado, seguida pelos processos praticados no dia a dia e, na base de tudo, a identidade que a pessoa carrega sobre si mesma. Quando alguém diz “quero perder dez quilos”, está falando apenas da camada mais externa, e é justamente por isso que essa meta, sozinha, costuma perder força assim que alcançada, ou mesmo antes disso, diante do primeiro obstáculo mais sério.
Já quando a mudança nasce de uma pergunta diferente, como “que tipo de pessoa eu quero ser”, o comportamento passa a ser sustentado por algo bem mais resistente ao tempo. Segundo Lucas Peralles, essa distinção explica por que dois pacientes podem começar exatamente o mesmo plano alimentar e, seis meses depois, um ainda mantém os hábitos construídos enquanto o outro já retomou o padrão anterior, mesmo tendo alcançado o resultado inicialmente desejado. Na prática da Clínica Peralles, essa observação se repete com frequência suficiente para deixar claro que o número na balança nunca foi, sozinho, o verdadeiro motor da mudança.
Como a ciência explica essa diferença entre motivação superficial e motivação profunda?
A teoria da autodeterminação, um dos modelos mais estudados sobre motivação humana, distingue motivação controlada, aquela imposta de fora, por pressão social ou estética, de motivação autônoma, que nasce de valores genuinamente internalizados pela pessoa. Estudos aplicando esse modelo a programas de controle de peso mostram que participantes com maior grau de motivação autônoma sustentam melhor os resultados ao longo de dezoito meses ou mais, enquanto aqueles motivados principalmente por pressão externa tendem a apresentar mais fadiga psicológica e menor adesão ao longo do tempo.

Ao mesmo tempo, pesquisas indicam que o apoio recebido de parceiros e familiares também influencia diretamente esse tipo de motivação, sendo que ambientes que respeitam a autonomia da pessoa, em vez de controlar ou pressionar suas escolhas, favorecem resultados melhores mesmo depois de longos períodos de acompanhamento. Conforme elucida Lucas Peralles, esse conhecimento muda completamente a forma de conduzir qualquer processo nutricional, já que impor regras externas rígidas, sem espaço para que o paciente compreenda e internalize o motivo por trás de cada escolha, tende a produzir exatamente o tipo de motivação mais frágil e passageira.
O que muda na prática quando o foco deixa de ser apenas o resultado final?
Trabalhar a partir da identidade não significa abandonar metas concretas, mas sim ancorá-las em algo mais estável do que um número isolado. Em vez de dizer “estou fazendo dieta para emagrecer”, a pessoa passa a se enxergar como alguém que cuida da própria alimentação, o que naturalmente sustenta o comportamento mesmo depois que a meta original já foi alcançada, e mesmo diante de contratempos que antes seriam suficientes para interromper todo o processo.
Esse é, dentre a visão Lucas Peralles, um dos pilares menos visíveis, mas mais importantes, do Método LP, que trata cada pequena escolha alimentar como um voto a favor da identidade que o paciente está construindo, e não apenas como um passo isolado em direção a um resultado estético temporário. Dentro da Clínica Peralles, essa mudança de enquadramento costuma ser um dos primeiros ajustes trabalhados com pacientes que já viveram diversos ciclos de dietas restritivas seguidos de reganho de peso.
Como sustentar essa mudança de identidade ao longo do tempo?
Reconhecer essa diferença entre mudança baseada em resultado e mudança baseada em identidade ajuda a explicar por que tantas pessoas relatam sensação de fracasso repetido, mesmo tendo seguido corretamente diversas dietas ao longo da vida. O problema nunca foi a falta de força de vontade, mas a ausência de uma base mais profunda capaz de sustentar o comportamento depois que a motivação inicial, naturalmente, perde intensidade.
Logo, ajudar o paciente a se enxergar como alguém que já é, e não apenas como alguém que está tentando se tornar, é um dos trabalhos mais valiosos realizados durante o acompanhamento nutricional. De acordo com Lucas Peralles, é justamente essa mudança interna, construída aos poucos dentro da Clínica Peralles, que separa quem finalmente rompe o ciclo de dietas temporárias de quem continua repetindo o mesmo padrão ano após ano.
