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A crise dos aterros acelera investimentos em recuperação energética de resíduos

Liv Norsten
Por Liv Norsten 21/07/2026 Noticias
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7 Min de leitura
Joel Alves
Joel Alves
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Cidades inteiras chegam ao limite de capacidade dos aterros sanitários sem que a população perceba a urgência do problema, informa Joel Alves. O espaço para descartar resíduos sólidos encolhe, o custo de transporte para destinos mais distantes sobe, e o método tradicional de simplesmente aterrar deixa de sustentar a lógica que guiou décadas de gestão urbana. Dentre esse panorama, a recuperação energética de resíduos deixou de ser alternativa marginal para ocupar posição central no debate sobre infraestrutura ambiental.

Contents
O gargalo dos aterros sanitários no paísComo funciona a recuperação energética de resíduos?O que muda na conta de quem administra o resíduo?De aterro a usina: uma mudança de lógica, não só de tecnologiaO resíduo como parte da matriz energética

Poucos setores tocam tão diretamente a rotina das cidades quanto a destinação final dos resíduos. Quando o aterro sanitário se aproxima da capacidade máxima, o problema deixa de ser apenas técnico e passa a interferir no custo dos serviços públicos, na saúde ambiental e na credibilidade da gestão municipal. A pergunta que fica é simples: o que fazer com o volume que continua crescendo?

O gargalo dos aterros sanitários no país

Grande parte dos aterros em operação no Brasil já opera perto do limite projetado, e a abertura de novas áreas enfrenta resistência de comunidades vizinhas, custo de licenciamento e escassez de terrenos adequados. Ampliar um aterro existente também não é simples: exige camadas de impermeabilização, sistemas de captação de gases e monitoramento constante do solo, o que encarece a operação ano após ano.

Diante desse cenário, prefeituras e empresas de saneamento passam a tratar o resíduo como um problema de planejamento de longo prazo, não como uma questão resolvida a cada caminhão despachado. Joel Alves aponta que essa mudança de postura é o primeiro sinal de que o setor amadurece: parar de empurrar o resíduo para o próximo terreno disponível e começar a perguntar o que fazer com ele antes de descartar.

Como funciona a recuperação energética de resíduos?

A recuperação energética consiste em transformar a fração do lixo que não pode ser reciclada em eletricidade, calor ou combustível, em vez de simplesmente enterrá-la. Duas rotas dominam essa conversão: a captação do biogás liberado pela decomposição do material orgânico dentro do próprio aterro e a incineração controlada de resíduos com geração de vapor para movimentar turbinas.

No primeiro caso, tubulações instaladas sob as camadas de resíduo captam o metano produzido pela decomposição e o conduzem até motores geradores, que convertem o gás em energia elétrica. No segundo, o material passa por fornos com controle rígido de temperatura e filtragem de gases, produzindo energia sem liberar poluentes acima dos limites regulatórios. Nenhuma das duas rotas substitui a reciclagem: ambas atuam sobre o resíduo que sobra depois que os materiais recicláveis já foram separados.

Joel Alves
Joel Alves

O que muda na conta de quem administra o resíduo?

Uma cidade que capta o biogás do próprio aterro reduz o volume de metano liberado na atmosfera e ainda gera receita com a venda de energia elétrica para a rede. Esse cálculo muda o peso do aterro no orçamento municipal: de item de despesa recorrente, ele passa a compor, ainda que parcialmente, a receita do sistema de saneamento. Por esse prospecto, Joel Alves reflete que esse ponto é decisivo para explicar por que as administrações públicas têm revisto contratos antigos de destinação final.

Esse cálculo de retorno explica por que o modelo avança primeiro nos grandes centros urbanos, onde o volume de resíduo sustenta a escala necessária para viabilizar a planta. Municípios menores dependem de consórcios regionais para reunir volume suficiente, o que impõe um desafio de coordenação política além do técnico.

De aterro a usina: uma mudança de lógica, não só de tecnologia

Até poucos anos atrás, o aterro sanitário era tratado como ponto final da cadeia de resíduos: o lugar onde tudo aquilo que não tinha mais utilidade parava. A recuperação energética, no entanto, inverte essa lógica ao transformar o aterro em um elo intermediário de um sistema maior, que envolve coleta, triagem, geração de energia e, em alguns casos, retorno de subprodutos ao próprio processo produtivo.

Em vista disso, e tal como Joel Alves comenta, essa transição pouco tem a ver com substituir uma tecnologia por outra: trata-se de mudar a pergunta que orienta a gestão de resíduos. Em vez de perguntar onde descartar, o setor passa a perguntar o que ainda pode ser extraído do material antes do descarte definitivo. Assim, essa mudança de pergunta é o que efetivamente separa uma gestão reativa de uma gestão planejada.

O resíduo como parte da matriz energética

A tendência que se desenha para os próximos anos não é a substituição total dos aterros, mas a integração deles a um sistema energético mais amplo, no qual o resíduo deixa de ser tratado como sobra e passa a ocupar um lugar definido na matriz de geração distribuída. Cidades que já operam plantas de recuperação energética tendem a repensar contratos de concessão inteiros a partir dessa lógica, priorizando tecnologias que capturam valor em cada etapa da cadeia.

Na avaliação de Joel Alves, o desafio real dos próximos anos não é mais provar que a recuperação energética funciona, mas definir em que escala e sob qual modelo de gestão ela se torna parte estrutural do saneamento urbano. A resposta para essa pergunta vai definir o desenho da infraestrutura ambiental nas próximas décadas.

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